Só há uma alma.
Ela
divide-se; e habita cada ser.
Mas
mantêm-se ligada.
A
lembrança da ligação é o espírito
santo.
Filho
de Jeremias chegou. Pelo jeito veio de longe, no lombo da égua. Deve tá todo
dolorido.
Apiou.
- Tarde
Dona Maria!
-
Tarde!
- E o
Zé, como vai indo?
- Passou
mal noite toda!
- Trago
notícia do Padre Armino!
-
Valha-me Deus, que dia ele vem vê meu marido?
- Que
dia sei não, mas mandou uma mensagem.
- Nossa
Senhora! Entra! Zé tá acordado...
Quem
nunca passou um grande mal? Daqueles mal que só tem uma saída: deixar passar!
Eu
moribundo espichado na cama.
- Ói os
ói dele! Dotô já falô que não tem jeito... se o padre demorá ele vai embora sem
as benção!
- Tou
vendo Dona Maria, tou vendo.
O
sofrimento vai até onde?
Quem
estica o sofrimento é a teimosia, só pode ser. Sofrimento se for aceito -
aceito de verdade - acaba. De vero!
Então
sobra a dor.
A dor sozinha
não é nada; é carne. Carne sente dor, mas não sofre.
Vejo
tudo ao meu redor. Vejo meu afilhado Jerônimo. Vejo a muié, que tanto desgosto me
trouxe, e escuito Leco brincando lá fora.
- Zé é
teimoso, enquanto ele não vê o padre, ele não vai embora desse mundo. Eu sei!
- Se
acalme Dona Maria. Ele tá assim há quantos dias?
- Treis
dia, Jeromo! Treis dia e treis noite... não fala, não come, não bebe... Ele deve
de tá esperano o padre pra morrê! Tenho certeza! Ai minha Nossa Senhora!
Muié
sempre errada.
Não
morro porque não chega a hora. Não como nem bebo porque dói tanto que ficar
quieto é melhor.
Nem
nunca fui chegado em padre!
Jerônimo
fez sinal.
- Vem
cá... - E saíram do quarto.
O
ditado popular diz que sofrimento lava a alma.
Mentira.
Sofrimento é enganação da consciência. O que lava a alma é esquecer que existo...
Mas que
mensagem o padre mandou?
Não consigo
entender o murmurinho na sala; bem-te-vi não deixa.
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