Eu tinha a idade de quinze quando
me levaram pra cidade. Meu tio me levou, pensando em ajudar ele na oficina.
Esse tio foi o único que saiu da roça e deu sorte. O resto, os outros cinco
ficaram mais pobre que já eram; um morreu de morte matada. Mas chegando lá, não durei dois anos, arrumei
outro emprego numa venda e fugi da casa de meu tio, a muié dele era muito brava,
me batia muito, pegava no meu pé. Fui passando de um emprego ruim pra outro
menos pior. Mas consegui estudar e me formei no ensino médio. Eu gostava de
estudar. Depois achei Maria perdida na vida, se juntamo. Quando a coisa ficou
preta, depois da terceira barrigada, vortei com ela e os minino pra roça de meu
pai no Cariri. Meu pai tinha se enrolado com uma mulata, sumiu e largou minha
mãe, que vivia sozinha. Não sei por que ele fez isso, minha mãe era bonita e
trabalhadera. Alta, dos olhos claros. Logo
ela morreu também, de maleita. Daí eu e Maria fiquemo aqui de veiz. Então enfartei
do nada, imagina, nem cinquenta eu tenho... depois o figo, doutor disse que
virou pasta por causa da cachaça, cirrose ele disse. Agora não levanto mais e
estou pronto pra morrê.
Leco
continua brincando lá fora. Ninguém nem sabe quem é o pai. É um dos muito
minino criado de encosto que vivem por estas banda. A mãe chamava Rosa. Leco
apareceu aqui e juntou-se nas brincadeiras com a garotada, a gente deu comida e
ele foi ficando. Minha mãe ainda era viva. Depois Rosa foi-se embora, não se
sabe se com Pedro da Lica ou com um tal de João bananero, que trabalhou na
fazenda do Dr. Dô, lá da taboca. Resultado é que agora Leco só tem a gente, quer
dizer, menos eu que já tou indo embora também.
Tem
hora que penso que o melhor é não saber de nada. O saber das coisas só faz a
gente sofrer mais ainda. Queria ser burro igual tio Julio. Esse sim viveu e
morreu rindo. Mesmo no maior aperto ficava com aquela cara de bobo de quem não
sabe do que se trata. Tudo que falava com ele, ria. Era muito bonzim pra saber
das coisas. Nunca teve muié, só sabia beber cachaça e ficar rindo. Feito bobo.
Pelo menos parecia que não tava sofrendo, sabe-se lá o que passava na cabeça
daquele tonto.
Eu
não. Sei de muita coisa, e isso dói.
Estou
delirando e tem hora parece que saio do corpo e fico flutuando pelo quarto.
Depois assusto, lembro que tou vivo, e entro no corpo de novo. Já faz algum
tempo que estou assim, deve ser o fim, mas ainda tenho medo. Acho que o medo não
deixa a gente morrer.
Algumas hora escuto mãe direitim me chamando.
É como se falasse bem alto no meu ouvido. Ela deve tá por aqui. Não consigo
vê-la, mas sei que é ela.
Escuta
ói!
- Zé.
Sim
mãe, pode falar, tou te ouvino!
-
Zé. O Leco Zé!
Que
tem Leco mãe, que tem ele?
-
É filho do seu pai!
Que
isso mãe, não... não pode ser. Pai sumiu no mundo há mais de dez anos, Leco tem
sete.
-
Teu pai não é o Firmino...
Ai
minha Nossa Senhora, Virgem Maria!
Me
explica isso mãe, não vai embora! Não vai embora!
-
Mãe! Mãe!
Jerônimo
e Maria entram meio atabalhoados no quarto.
Maria
começa a chorar, soluçando.
-
Jerômo de Deus, cê viu!? Tá chamano a mãe dele! Ai minha Nossa Senhora, Jerômo,
chama o padre, chama o padre pelamordedeus, Zé deve de tá nas úrtima!