domingo, 10 de agosto de 2014

DIALÉTICA I

A: O que posso fazer de útil agora?
B: Por que o útil é importante?
A: Porque o inútil é desperdício!
B: Desperdício é relativo. Por exemplo, tomar sol pode ser um desperdício de tempo para uns e lazer para outros. O inútil, então, só pode ser desperdício em relação a alguma outra razão.
A: Que seja! Então considere inútil em relação ao tempo. Inútil que eu quero dizer é desperdício de tempo.
B: Então você não quer perder tempo?
A: Não quero perder tempo, isso!
B: Então você pergunta o que podes fazer para não perder tempo? Ou melhor, para ganhar tempo?
A: Pode ser que sim.
B: Utilidade para você é ganhar tempo?
A: Acredito que sim.
B: Mas ganhar tempo também é relativo.
A: Espere, não vamos começar tudo de novo.
B: Certo, mas me dê pelo menos um exemplo de um tempo ganho, para você.
A: Por exemplo, eu considero que estou ganhando tempo quando estou fazendo algo que me dá prazer ou que aumente minhas possibilidades de ser feliz.
B: Entendo. Mas vamos por partes. Você utilizou duas expressões novas, dar prazer e ser feliz.
A: Continue.
B: Quanto ao prazer acho que está claro, mas "ser feliz" me parece meio vago e, neste caso, muito subjetivo, não acha?
A: Concordo. Mas antes que me pergunte o que é "ser feliz", posso resumir que pra mim é "estar em plena saúde física e mental e gozar de liberdade".
B: Boa descrição para felicidade. Então, até agora, temos que a pergunta inicial do que você poderia fazer de útil se traduz em "o que posso fazer agora para ser feliz"? É isso?
A: Pode ser isso sim, apesar de existirem outras possibilidades também.

B: Claro. Ma podemos continuar deste ponto ou seria melhor procurar outros caminhos?
A: Vamos por este mesmo, se não encontrarmos a melhor resposta para a pergunta original, pelo menos teremos percorrido todo este caminho até o fim. Pior seria se tentássemos visualizar todas as possibilidades e não concluíssemos nenhuma delas.
B: Certo.  Então deduzimos até agora que você quer saber o que fazer nesse momento para "manter a saúde física e mental e gozar de liberdade".
A: Exato.
B: "Saúde física e mental" e "gozar de liberdade" são duas coisas distintas, então vamos tratá-las separadamente. Certo?
A: Certo.
B: O que fazer agora para manter a saúde física e mental? Essa é a primeira pergunta que analisaremos, não é?
A: Sim, é.
B: Depois analisaremos a pergunta "O que fazer agora para gozar de liberdade?".
A: Continue.
B: Saúde física e saúde mental são duas coisas distintas?
A: Não creio. Parece-me que são interdependentes.
B: Vou chamá-las, para efeito de simplificação, apenas de "saúde", tudo bem?
A: Sim, por bem do avanço da discussão, sim.
B: Saúde, tanto mental e física, é um estado de equilíbrio. Poderíamos dizer que a dor física ou a dor mental seriam a característica empírica da "não saúde", certo?
A: Certo.
B: Vamos, para efeito de simplificação, chamar a "não saúde" de doença, concorda?
A: Concordo.
B: Mas antes, o que é equilíbrio mental e o que é equilíbrio físico?
A: Ao meu ver equilíbrio físico é a homeostase biológica, ou seja, o perfeito funcionamento dos órgãos e de suas interações uns com os outros. Gerando então um bem-estar natural do corpo. Esse estado homeostático é melhor compreendido quando estamos doentes fisicamente e naqueles momentos de agonia, rogamos para que o corpo volte ao estado de bem-estar natural.
B: Exato. Falta compreender o que é o equilíbrio mental.
A: O equilíbrio mental me parece bem mais difícil de definir, pelo menos num primeiro momento.
B: Vamos tentar então. A mente possui um estado de bem-estar natural? Naquele sentido que você deu ao bem-estar físico?
A: De certo modo sim. Mas no caso da mente não basta somente harmonia física. Quando tenho uma dor de cabeça, por exemplo, ainda estamos tratando de uma dor física. Mas podemos estar num completo bem-estar físico e mesmo assim ainda subsistir uma espécie de dor mental. Ainda pode ocorrer aflição, angústia, a sensação de vazio, e tantas outras espécies de processos mentais mesmo que nosso corpo esteja em equilíbrio e sem sentir dor.
B: Não tenho tanta certeza disso. A aflição, angústia, etc... que você diz ser um desconforto puramente mental, pode provir de algum desequilíbrio orgânico de uma ordem mais sutil. Se formos atentos podemos perceber que várias sensações mentais desagradáveis, como por exemplo, a irritabilidade, desgosto, e mesmo certos tipos de aflição e angústia, são provenientes algumas vezes de simples cansaço físico.
A: Sim, às vezes podemos constatar isso sim.
B: É possível então que todas as indisposições mentais sejam fruto de sofrimentos físicos. Tais sofrimentos de ordem mais sutil em diversos graus.
A: Não podemos descartar tal possibilidade, mas também não podemos afirmar com certeza que são "todos" os sofrimentos mentais causados por sofrimentos físicos. A "saudade", por exemplo. De que forma poderíamos supor que a saudade provém de um sofrimento físico?
B: Eu não afirmei que todos os sofrimentos mentais provêm de sofrimentos físicos. Apenas supus esta possibilidade. E ainda a mantenho. A saudade pode ser um tipo de sofrimento físico sutil, causado pela ausência daquele que provia algum conforto material sutil. E retirada esta provisão haja retornado um desconforto físico. Considerando tudo isso num campo sutil, quase imperceptível. Mas acredito que cada caso em particular poderia ser esmiuçado até o ponto de ser descoberto exatamente onde o sofrimento em questão ocorre, desde que tivéssemos tempo o suficiente para realizar uma análise detalhada. Mas uma análise de tal tipo não é viável na prática devido à extensão dos detalhes que o problema suscitaria.
A: Você está me dizendo que a questão de "que todo sofrimento mental pode ter origem física" é insolúvel?
B: Não exatamente, estou apenas dizendo que é muito trabalhoso provar isso utilizando um método de exaustão. Em outras palavras, a solução não é tão evidente quanto o resto do que estamos considerando.
A: Estão chegamos a um beco sem saída!
B: Nem tanto! O que podemos fazer é deixar a afirmação de que "todo sofrimento mental tem sua origem num sofrimento físico" como uma hipótese e continuar a partir daí. Esta hipótese ficaria então em aberto para ser provada ou discutida em outra oportunidade.
A: Entendo. Mas neste caso teremos também a hipótese contrária, a de que "existem sofrimentos mentais que não são provenientes de sofrimentos físicos".
B: Sim. Agora então temos que decidir qual destas hipóteses vamos considerar correta, para então continuarmos nossa investigação. Qual você prefere?
A: Eu creio que existem sofrimentos mentais que nada tem a ver com sofrimentos físicos.
B: Eu creio o contrário. Mas tudo bem, se você quer continuar daí, então prossigamos.
A: Sim, então vamos ... 

domingo, 3 de agosto de 2014

O DENTE - Capítulo IV

Vaidade.
Instinto de ostentação.
Panos vestir, ficar na moda,
adereços colocar.

Vaidade.
Vestir o padrão,
evitar de si o desprezo alheio,
no meio da multidão. 

Vaidade.
Pavor de se mostrar pobre,
de revelar a miséria de dentro,
que a si não se esconde jamais.

Se fosse só uma questão de vestimenta, meu dente, ou melhor, a falta dele, não seria um problema. Mas a vaidade refere-se também aos dentes, aos cabelos, aos olhos, à boca, ao pé, a tudo. Não há pior escrutínio que a sensatez do niilista, vencido que é pelas normas sociais. Sua averiguação dos conformes, na sua fria avaliação do próximo, vai da unha do dedão do pé ao último fio de cabelo.

O DENTE - Capítulo III

Atrasado.
A reunião já deve ter começado. Droga!

Vou assim mesmo. Hoje tem um cliente importante. Poxa vida. Logo hoje me acontece uma coisa dessas... Cliente dos bão, dos bão... tenho que ir, tenho que ir...
Vou de qualquer jeito. Seja o que Deus quiser, depois vou ao dentista.
                
Dei sorte, ninguém no elevador. Observo atentamente aquele sorriso vazio; começo a rir de nervoso, quanto mais rio mais engraçado fica. O contraste da roupa fina com aquele estrupício de boca. Pareço um mendigo bem arrumado.

Calma... melhor não pensar nisso. Fico treinando falar com a boca fechada.

O DENTE - Capítulo II

O telefone chama, ninguém atende. Também pudera, sete e meia, Junim deve estar dormindo uma hora dessas.

A única coisa que lembro é de ter saído com ele ontem à noite.

Tento lembrar. Fico meio aturdido. Não consigo pensar direito. Lembra vai. Lembra!

Geralmente vamos ao Shopping, lanchamos na praça procurando paqueras, e se a noite estiver boa, subimos pra cachaçaria. Daí em diante qualquer coisa pode acontecer. Mas não me lembro de nada... só do Junim!

Atende diabo!

Nada.

Pra bebedor de vódka, amnésia alcoólica é comum. O difícil é explicar. Acham que você é mentiroso.

O DENTE - Capítulo I

Acordar.
Misterioso diário ritual. 
O torpor do corpo enfraquecendo, 
sensações se aguçando,
subitamente o real.

Acordei.

Sinto-me vazio, de uma dormida sem sonhos. Estico com força os braços até dobrar a espinha. Uma virada, um gemido, um impulso até sentar. Mais um segundo no nada. E me levanto.

Vou segurando as paredes até o banheiro.

Passo bocejando pelo espelho. Algo estranho...

Aquela boca - sobe um frio pela barriga. Não sei quanto tempo fico congelado, com a boca aberta. O espelho. Aquela imagem. Não consigo assimilar direito. Penso que é um sonho... ou melhor, desejo que seja. Mas não é!

Falta-me um dente; da frente!!