domingo, 12 de julho de 2015

A Mensagem de Nossa Senhora Aparecida - Parte II - O minino

   Eu tinha a idade de quinze quando me levaram pra cidade. Meu tio me levou, pensando em ajudar ele na oficina. Esse tio foi o único que saiu da roça e deu sorte. O resto, os outros cinco ficaram mais pobre que já eram; um morreu de morte matada.  Mas chegando lá, não durei dois anos, arrumei outro emprego numa venda e fugi da casa de meu tio, a muié dele era muito brava, me batia muito, pegava no meu pé. Fui passando de um emprego ruim pra outro menos pior. Mas consegui estudar e me formei no ensino médio. Eu gostava de estudar. Depois achei Maria perdida na vida, se juntamo. Quando a coisa ficou preta, depois da terceira barrigada, vortei com ela e os minino pra roça de meu pai no Cariri. Meu pai tinha se enrolado com uma mulata, sumiu e largou minha mãe, que vivia sozinha. Não sei por que ele fez isso, minha mãe era bonita e trabalhadera. Alta, dos olhos claros.  Logo ela morreu também, de maleita. Daí eu e Maria fiquemo aqui de veiz. Então enfartei do nada, imagina, nem cinquenta eu tenho... depois o figo, doutor disse que virou pasta por causa da cachaça, cirrose ele disse. Agora não levanto mais e estou pronto pra morrê.
   Leco continua brincando lá fora. Ninguém nem sabe quem é o pai. É um dos muito minino criado de encosto que vivem por estas banda. A mãe chamava Rosa. Leco apareceu aqui e juntou-se nas brincadeiras com a garotada, a gente deu comida e ele foi ficando. Minha mãe ainda era viva. Depois Rosa foi-se embora, não se sabe se com Pedro da Lica ou com um tal de João bananero, que trabalhou na fazenda do Dr. Dô, lá da taboca. Resultado é que agora Leco só tem a gente, quer dizer, menos eu que já tou indo embora também.
   Tem hora que penso que o melhor é não saber de nada. O saber das coisas só faz a gente sofrer mais ainda. Queria ser burro igual tio Julio. Esse sim viveu e morreu rindo. Mesmo no maior aperto ficava com aquela cara de bobo de quem não sabe do que se trata. Tudo que falava com ele, ria. Era muito bonzim pra saber das coisas. Nunca teve muié, só sabia beber cachaça e ficar rindo. Feito bobo. Pelo menos parecia que não tava sofrendo, sabe-se lá o que passava na cabeça daquele tonto.
   Eu não. Sei de muita coisa, e isso dói.
   Estou delirando e tem hora parece que saio do corpo e fico flutuando pelo quarto. Depois assusto, lembro que tou vivo, e entro no corpo de novo. Já faz algum tempo que estou assim, deve ser o fim, mas ainda tenho medo. Acho que o medo não deixa a gente morrer.
   Algumas hora escuto mãe direitim me chamando. É como se falasse bem alto no meu ouvido. Ela deve tá por aqui. Não consigo vê-la, mas sei que é ela.
                
Escuta ói!
- Zé.
Sim mãe, pode falar, tou te ouvino!
- Zé. O Leco Zé!
Que tem Leco mãe, que tem ele?
- É filho do seu pai!
Que isso mãe, não... não pode ser. Pai sumiu no mundo há mais de dez anos, Leco tem sete.
- Teu pai não é o Firmino...
Ai minha Nossa Senhora, Virgem Maria!
Me explica isso mãe, não vai embora! Não vai embora!
- Mãe! Mãe!

Jerônimo e Maria entram meio atabalhoados no quarto.
Maria começa a chorar, soluçando.
- Jerômo de Deus, cê viu!? Tá chamano a mãe dele! Ai minha Nossa Senhora, Jerômo, chama o padre, chama o padre pelamordedeus, Zé deve de tá nas úrtima! 

A Mensagem de Nossa Senhora Aparecida - Parte I - A chegança da mensagem

Só há uma alma.
Ela divide-se; e habita cada ser.
Mas mantêm-se ligada.
A lembrança da ligação é o espírito santo.
              
Filho de Jeremias chegou. Pelo jeito veio de longe, no lombo da égua. Deve tá todo dolorido.
Apiou.
- Tarde Dona Maria!
- Tarde!
- E o Zé, como vai indo?
- Passou mal noite toda!
- Trago notícia do Padre Armino!
- Valha-me Deus, que dia ele vem vê meu marido?
- Que dia sei não, mas mandou uma mensagem.
- Nossa Senhora! Entra! Zé tá acordado...

Quem nunca passou um grande mal? Daqueles mal que só tem uma saída: deixar passar!

Eu moribundo espichado na cama.

- Ói os ói dele! Dotô já falô que não tem jeito... se o padre demorá ele vai embora sem as benção!
- Tou vendo Dona Maria, tou vendo.

O sofrimento vai até onde?
Quem estica o sofrimento é a teimosia, só pode ser. Sofrimento se for aceito - aceito de verdade - acaba. De vero!
Então sobra a dor.
A dor sozinha não é nada; é carne. Carne sente dor, mas não sofre.
Vejo tudo ao meu redor. Vejo meu afilhado Jerônimo. Vejo a muié, que tanto desgosto me trouxe, e escuito Leco brincando lá fora.
                
- Zé é teimoso, enquanto ele não vê o padre, ele não vai embora desse mundo. Eu sei!
- Se acalme Dona Maria. Ele tá assim há quantos dias?
- Treis dia, Jeromo! Treis dia e treis noite... não fala, não come, não bebe... Ele deve de tá esperano o padre pra morrê! Tenho certeza! Ai minha Nossa Senhora!

Muié sempre errada.
Não morro porque não chega a hora. Não como nem bebo porque dói tanto que ficar quieto é melhor.
Nem nunca fui chegado em padre!

Jerônimo fez sinal.
- Vem cá... - E saíram do quarto.

O ditado popular diz que sofrimento lava a alma.
Mentira. Sofrimento é enganação da consciência. O que lava a alma é esquecer que existo...
Mas que mensagem o padre mandou?

Não consigo entender o murmurinho na sala; bem-te-vi não deixa.

domingo, 10 de agosto de 2014

DIALÉTICA I

A: O que posso fazer de útil agora?
B: Por que o útil é importante?
A: Porque o inútil é desperdício!
B: Desperdício é relativo. Por exemplo, tomar sol pode ser um desperdício de tempo para uns e lazer para outros. O inútil, então, só pode ser desperdício em relação a alguma outra razão.
A: Que seja! Então considere inútil em relação ao tempo. Inútil que eu quero dizer é desperdício de tempo.
B: Então você não quer perder tempo?
A: Não quero perder tempo, isso!
B: Então você pergunta o que podes fazer para não perder tempo? Ou melhor, para ganhar tempo?
A: Pode ser que sim.
B: Utilidade para você é ganhar tempo?
A: Acredito que sim.
B: Mas ganhar tempo também é relativo.
A: Espere, não vamos começar tudo de novo.
B: Certo, mas me dê pelo menos um exemplo de um tempo ganho, para você.
A: Por exemplo, eu considero que estou ganhando tempo quando estou fazendo algo que me dá prazer ou que aumente minhas possibilidades de ser feliz.
B: Entendo. Mas vamos por partes. Você utilizou duas expressões novas, dar prazer e ser feliz.
A: Continue.
B: Quanto ao prazer acho que está claro, mas "ser feliz" me parece meio vago e, neste caso, muito subjetivo, não acha?
A: Concordo. Mas antes que me pergunte o que é "ser feliz", posso resumir que pra mim é "estar em plena saúde física e mental e gozar de liberdade".
B: Boa descrição para felicidade. Então, até agora, temos que a pergunta inicial do que você poderia fazer de útil se traduz em "o que posso fazer agora para ser feliz"? É isso?
A: Pode ser isso sim, apesar de existirem outras possibilidades também.

B: Claro. Ma podemos continuar deste ponto ou seria melhor procurar outros caminhos?
A: Vamos por este mesmo, se não encontrarmos a melhor resposta para a pergunta original, pelo menos teremos percorrido todo este caminho até o fim. Pior seria se tentássemos visualizar todas as possibilidades e não concluíssemos nenhuma delas.
B: Certo.  Então deduzimos até agora que você quer saber o que fazer nesse momento para "manter a saúde física e mental e gozar de liberdade".
A: Exato.
B: "Saúde física e mental" e "gozar de liberdade" são duas coisas distintas, então vamos tratá-las separadamente. Certo?
A: Certo.
B: O que fazer agora para manter a saúde física e mental? Essa é a primeira pergunta que analisaremos, não é?
A: Sim, é.
B: Depois analisaremos a pergunta "O que fazer agora para gozar de liberdade?".
A: Continue.
B: Saúde física e saúde mental são duas coisas distintas?
A: Não creio. Parece-me que são interdependentes.
B: Vou chamá-las, para efeito de simplificação, apenas de "saúde", tudo bem?
A: Sim, por bem do avanço da discussão, sim.
B: Saúde, tanto mental e física, é um estado de equilíbrio. Poderíamos dizer que a dor física ou a dor mental seriam a característica empírica da "não saúde", certo?
A: Certo.
B: Vamos, para efeito de simplificação, chamar a "não saúde" de doença, concorda?
A: Concordo.
B: Mas antes, o que é equilíbrio mental e o que é equilíbrio físico?
A: Ao meu ver equilíbrio físico é a homeostase biológica, ou seja, o perfeito funcionamento dos órgãos e de suas interações uns com os outros. Gerando então um bem-estar natural do corpo. Esse estado homeostático é melhor compreendido quando estamos doentes fisicamente e naqueles momentos de agonia, rogamos para que o corpo volte ao estado de bem-estar natural.
B: Exato. Falta compreender o que é o equilíbrio mental.
A: O equilíbrio mental me parece bem mais difícil de definir, pelo menos num primeiro momento.
B: Vamos tentar então. A mente possui um estado de bem-estar natural? Naquele sentido que você deu ao bem-estar físico?
A: De certo modo sim. Mas no caso da mente não basta somente harmonia física. Quando tenho uma dor de cabeça, por exemplo, ainda estamos tratando de uma dor física. Mas podemos estar num completo bem-estar físico e mesmo assim ainda subsistir uma espécie de dor mental. Ainda pode ocorrer aflição, angústia, a sensação de vazio, e tantas outras espécies de processos mentais mesmo que nosso corpo esteja em equilíbrio e sem sentir dor.
B: Não tenho tanta certeza disso. A aflição, angústia, etc... que você diz ser um desconforto puramente mental, pode provir de algum desequilíbrio orgânico de uma ordem mais sutil. Se formos atentos podemos perceber que várias sensações mentais desagradáveis, como por exemplo, a irritabilidade, desgosto, e mesmo certos tipos de aflição e angústia, são provenientes algumas vezes de simples cansaço físico.
A: Sim, às vezes podemos constatar isso sim.
B: É possível então que todas as indisposições mentais sejam fruto de sofrimentos físicos. Tais sofrimentos de ordem mais sutil em diversos graus.
A: Não podemos descartar tal possibilidade, mas também não podemos afirmar com certeza que são "todos" os sofrimentos mentais causados por sofrimentos físicos. A "saudade", por exemplo. De que forma poderíamos supor que a saudade provém de um sofrimento físico?
B: Eu não afirmei que todos os sofrimentos mentais provêm de sofrimentos físicos. Apenas supus esta possibilidade. E ainda a mantenho. A saudade pode ser um tipo de sofrimento físico sutil, causado pela ausência daquele que provia algum conforto material sutil. E retirada esta provisão haja retornado um desconforto físico. Considerando tudo isso num campo sutil, quase imperceptível. Mas acredito que cada caso em particular poderia ser esmiuçado até o ponto de ser descoberto exatamente onde o sofrimento em questão ocorre, desde que tivéssemos tempo o suficiente para realizar uma análise detalhada. Mas uma análise de tal tipo não é viável na prática devido à extensão dos detalhes que o problema suscitaria.
A: Você está me dizendo que a questão de "que todo sofrimento mental pode ter origem física" é insolúvel?
B: Não exatamente, estou apenas dizendo que é muito trabalhoso provar isso utilizando um método de exaustão. Em outras palavras, a solução não é tão evidente quanto o resto do que estamos considerando.
A: Estão chegamos a um beco sem saída!
B: Nem tanto! O que podemos fazer é deixar a afirmação de que "todo sofrimento mental tem sua origem num sofrimento físico" como uma hipótese e continuar a partir daí. Esta hipótese ficaria então em aberto para ser provada ou discutida em outra oportunidade.
A: Entendo. Mas neste caso teremos também a hipótese contrária, a de que "existem sofrimentos mentais que não são provenientes de sofrimentos físicos".
B: Sim. Agora então temos que decidir qual destas hipóteses vamos considerar correta, para então continuarmos nossa investigação. Qual você prefere?
A: Eu creio que existem sofrimentos mentais que nada tem a ver com sofrimentos físicos.
B: Eu creio o contrário. Mas tudo bem, se você quer continuar daí, então prossigamos.
A: Sim, então vamos ... 

domingo, 3 de agosto de 2014

O DENTE - Capítulo IV

Vaidade.
Instinto de ostentação.
Panos vestir, ficar na moda,
adereços colocar.

Vaidade.
Vestir o padrão,
evitar de si o desprezo alheio,
no meio da multidão. 

Vaidade.
Pavor de se mostrar pobre,
de revelar a miséria de dentro,
que a si não se esconde jamais.

Se fosse só uma questão de vestimenta, meu dente, ou melhor, a falta dele, não seria um problema. Mas a vaidade refere-se também aos dentes, aos cabelos, aos olhos, à boca, ao pé, a tudo. Não há pior escrutínio que a sensatez do niilista, vencido que é pelas normas sociais. Sua averiguação dos conformes, na sua fria avaliação do próximo, vai da unha do dedão do pé ao último fio de cabelo.

O DENTE - Capítulo III

Atrasado.
A reunião já deve ter começado. Droga!

Vou assim mesmo. Hoje tem um cliente importante. Poxa vida. Logo hoje me acontece uma coisa dessas... Cliente dos bão, dos bão... tenho que ir, tenho que ir...
Vou de qualquer jeito. Seja o que Deus quiser, depois vou ao dentista.
                
Dei sorte, ninguém no elevador. Observo atentamente aquele sorriso vazio; começo a rir de nervoso, quanto mais rio mais engraçado fica. O contraste da roupa fina com aquele estrupício de boca. Pareço um mendigo bem arrumado.

Calma... melhor não pensar nisso. Fico treinando falar com a boca fechada.

O DENTE - Capítulo II

O telefone chama, ninguém atende. Também pudera, sete e meia, Junim deve estar dormindo uma hora dessas.

A única coisa que lembro é de ter saído com ele ontem à noite.

Tento lembrar. Fico meio aturdido. Não consigo pensar direito. Lembra vai. Lembra!

Geralmente vamos ao Shopping, lanchamos na praça procurando paqueras, e se a noite estiver boa, subimos pra cachaçaria. Daí em diante qualquer coisa pode acontecer. Mas não me lembro de nada... só do Junim!

Atende diabo!

Nada.

Pra bebedor de vódka, amnésia alcoólica é comum. O difícil é explicar. Acham que você é mentiroso.

O DENTE - Capítulo I

Acordar.
Misterioso diário ritual. 
O torpor do corpo enfraquecendo, 
sensações se aguçando,
subitamente o real.

Acordei.

Sinto-me vazio, de uma dormida sem sonhos. Estico com força os braços até dobrar a espinha. Uma virada, um gemido, um impulso até sentar. Mais um segundo no nada. E me levanto.

Vou segurando as paredes até o banheiro.

Passo bocejando pelo espelho. Algo estranho...

Aquela boca - sobe um frio pela barriga. Não sei quanto tempo fico congelado, com a boca aberta. O espelho. Aquela imagem. Não consigo assimilar direito. Penso que é um sonho... ou melhor, desejo que seja. Mas não é!

Falta-me um dente; da frente!!