A: O que posso fazer de útil agora?
B: Por que o útil é importante?
A: Porque o inútil é desperdício!
B: Desperdício é relativo. Por exemplo, tomar sol pode ser
um desperdício de tempo para uns e lazer para outros. O inútil, então, só pode
ser desperdício em relação a alguma outra razão.
A: Que seja! Então considere inútil em relação ao tempo.
Inútil que eu quero dizer é desperdício de tempo.
B: Então você não quer perder tempo?
A: Não quero perder tempo, isso!
B: Então você pergunta o que podes fazer para não perder
tempo? Ou melhor, para ganhar tempo?
A: Pode ser que sim.
B: Utilidade para você é ganhar tempo?
A: Acredito que sim.
B: Mas ganhar tempo também é relativo.
A: Espere, não vamos começar tudo de novo.
B: Certo, mas me dê pelo menos um exemplo de um tempo ganho,
para você.
A: Por exemplo, eu considero que estou ganhando tempo quando
estou fazendo algo que me dá prazer ou que aumente minhas possibilidades de ser
feliz.
B: Entendo. Mas vamos por partes. Você utilizou duas
expressões novas, dar prazer e ser feliz.
A: Continue.
B: Quanto ao prazer acho que está claro, mas "ser
feliz" me parece meio vago e, neste caso, muito subjetivo, não acha?
A: Concordo. Mas antes que me pergunte o que é "ser
feliz", posso resumir que pra mim é "estar em plena saúde física e
mental e gozar de liberdade".
B: Boa descrição para felicidade. Então, até agora, temos
que a pergunta inicial do que você poderia fazer de útil se traduz em "o
que posso fazer agora para ser feliz"? É isso?
A: Pode ser isso sim, apesar de existirem outras
possibilidades também.
B: Claro. Ma podemos continuar deste ponto ou seria melhor
procurar outros caminhos?
A: Vamos por este mesmo, se não encontrarmos a melhor
resposta para a pergunta original, pelo menos teremos percorrido todo este
caminho até o fim. Pior seria se tentássemos visualizar todas as possibilidades
e não concluíssemos nenhuma delas.
B: Certo. Então
deduzimos até agora que você quer saber o que fazer nesse momento para
"manter a saúde física e mental e gozar de liberdade".
A: Exato.
B: "Saúde física e mental" e "gozar de
liberdade" são duas coisas distintas, então vamos tratá-las separadamente.
Certo?
A: Certo.
B: O que fazer agora para manter a saúde física e mental?
Essa é a primeira pergunta que analisaremos, não é?
A: Sim, é.
B: Depois analisaremos a pergunta "O que fazer agora
para gozar de liberdade?".
A: Continue.
B: Saúde física e saúde mental são duas coisas distintas?
A: Não creio. Parece-me que são interdependentes.
B: Vou chamá-las, para efeito de simplificação, apenas de
"saúde", tudo bem?
A: Sim, por bem do avanço da discussão, sim.
B: Saúde, tanto mental e física, é um estado de equilíbrio.
Poderíamos dizer que a dor física ou a dor mental seriam a característica
empírica da "não saúde", certo?
A: Certo.
B: Vamos, para efeito de simplificação, chamar a "não
saúde" de doença, concorda?
A: Concordo.
B: Mas antes, o que é equilíbrio mental e o que é equilíbrio
físico?
A: Ao meu ver equilíbrio físico é a homeostase biológica, ou
seja, o perfeito funcionamento dos órgãos e de suas interações uns com os
outros. Gerando então um bem-estar natural do corpo. Esse estado homeostático é
melhor compreendido quando estamos doentes fisicamente e naqueles momentos de
agonia, rogamos para que o corpo volte ao estado de bem-estar natural.
B: Exato. Falta compreender o que é o equilíbrio mental.
A: O equilíbrio mental me parece bem mais difícil de
definir, pelo menos num primeiro momento.
B: Vamos tentar então. A mente possui um estado de bem-estar
natural? Naquele sentido que você deu ao bem-estar físico?
A: De certo modo sim. Mas no caso da mente não basta somente
harmonia física. Quando tenho uma dor de cabeça, por exemplo, ainda estamos
tratando de uma dor física. Mas podemos estar num completo bem-estar físico e
mesmo assim ainda subsistir uma espécie de dor mental. Ainda pode ocorrer
aflição, angústia, a sensação de vazio, e tantas outras espécies de processos
mentais mesmo que nosso corpo esteja em equilíbrio e sem sentir dor.
B: Não tenho tanta certeza disso. A aflição, angústia,
etc... que você diz ser um desconforto puramente mental, pode provir de algum
desequilíbrio orgânico de uma ordem mais sutil. Se formos atentos podemos
perceber que várias sensações mentais desagradáveis, como por exemplo, a
irritabilidade, desgosto, e mesmo certos tipos de aflição e angústia, são
provenientes algumas vezes de simples cansaço físico.
A: Sim, às vezes podemos constatar isso sim.
B: É possível então que todas as indisposições mentais sejam
fruto de sofrimentos físicos. Tais sofrimentos de ordem mais sutil em diversos
graus.
A: Não podemos descartar tal possibilidade, mas também não
podemos afirmar com certeza que são "todos" os sofrimentos mentais
causados por sofrimentos físicos. A "saudade", por exemplo. De que
forma poderíamos supor que a saudade provém de um sofrimento físico?
B: Eu não afirmei que todos os sofrimentos mentais provêm de
sofrimentos físicos. Apenas supus esta possibilidade. E ainda a mantenho. A
saudade pode ser um tipo de sofrimento físico sutil, causado pela ausência
daquele que provia algum conforto material sutil. E retirada esta provisão haja
retornado um desconforto físico. Considerando tudo isso num campo sutil, quase
imperceptível. Mas acredito que cada caso em particular poderia ser esmiuçado
até o ponto de ser descoberto exatamente onde o sofrimento em questão ocorre,
desde que tivéssemos tempo o suficiente para realizar uma análise detalhada.
Mas uma análise de tal tipo não é viável na prática devido à extensão dos detalhes
que o problema suscitaria.
A: Você está me dizendo que a questão de "que todo
sofrimento mental pode ter origem física" é insolúvel?
B: Não exatamente, estou apenas dizendo que é muito
trabalhoso provar isso utilizando um método de exaustão. Em outras palavras, a
solução não é tão evidente quanto o resto do que estamos considerando.
A: Estão chegamos a um beco sem saída!
B: Nem tanto! O que podemos fazer é deixar a afirmação de
que "todo sofrimento mental tem sua origem num sofrimento físico"
como uma hipótese e continuar a partir daí. Esta hipótese ficaria então em
aberto para ser provada ou discutida em outra oportunidade.
A: Entendo. Mas neste caso teremos também a hipótese
contrária, a de que "existem sofrimentos mentais que não são provenientes
de sofrimentos físicos".
B: Sim. Agora então temos que decidir qual destas hipóteses
vamos considerar correta, para então continuarmos nossa investigação. Qual você
prefere?
A: Eu creio que existem sofrimentos mentais que nada tem a
ver com sofrimentos físicos.
B: Eu creio o contrário. Mas tudo bem, se você quer
continuar daí, então prossigamos.
A: Sim, então vamos ...